A ciência mostra que a cannabis pode ter efeito positivo no tratamento de determinadas doenças e no alívio de sintomas, como crises epilépticas e dores crônicas, mas o abuso da substância também é problemático. Pensando nisso, cientistas da Universidade Yale desenvolveram um medicamento que, em testes clínicos, se mostra capaz de tratar viciados em maconha.

Conhecida pelo código PF-04457845, a droga experimental bloqueia a hidrolase de amida de ácido graxo (FAAH, na sigla em inglês), enzima catalizadora de uma classe de lipídios. Em testes clínicos de fase dois, os pacientes tratados com a substância fizeram menos uso da maconha e experimentaram menos sintomas da abstinência, em comparação com o placebo.

Participaram do estudo 70 homens dependentes da maconha, divididos em dois grupos. De acordo com os pesquisadores, o medicamento parece disparar químicas no cérebro semelhantes com os da maconha, substituindo a droga sem os efeitos da abstinência.

— Muitas outras drogas foram testadas para reduzir o uso da maconha e a abstinência, mas até agora nenhuma delas demonstrou de forma consistente efeitos sobre os sintomas e as recaídas — afirmou o professor de Yale Deepak Cyril D’Souza, líder do estudo publicado esta semana na revista “The Lancet Psychiatry”. — Além disso, diferente da Cannabis ou de seu principal psicoativo delta-9 tetrahidrocanabinol, os inibidores de FAAH não parecem ter efeitos psicoativos ou de recompensa, por isso não devem causar dependência.

A dependência da maconha compromete a vida social e funcional dos pacientes

A dependência da maconha é caracterizada pelo uso continuado da droga, apesar das consequências negativas, como comprometimento social e funcional, uso de risco, tolerância e sintomas de abstinência, como irritabilidade, raiva, depressão, distúrbios do sono, perda de peso e apetite e desejo pela droga.

A estimativa é que existam no mundo 13 milhões de pessoas viciadas em maconha. Nos EUA, onde as pesquisas estão em andamento, cerca de um terço de todos os usuários atendem os critérios estabelecidos para o diagnóstico da dependência. Apenas em 2016, mais de 250 mil americanos buscaram tratamento para o problema, mas apenas uma pequena parcela deles conseguiram se tratar por meio de intervenções comportamentais, como terapias cognitivas e motivacionais.

Não existem medicações eficazes

Atualmente, não existem tratamentos farmacológicos aprovados para a dependência da Cannabis. Quase todas as classes de drogas psicotrópicas foram testadas, mas nenhuma apresentou resultados positivos. A terapia de substituição com o THC mostrou algum efeito na redução da abstinência, mas não previne as recaídas.

No estudo participaram 70 homens com idades entre 18 e 55 anos diagnosticados com a dependência. 46 deles fizeram uso do PF-04457845 e o restante, de placebos. Todos foram admitidos no centro de recuperação uma semana antes do início da terapia para disparar os sintomas de dependência. Ao longo de quatro semanas receberam o medicamento ou o placebo, depois foram liberados para continuar a terapia em casa, por três semanas.

A aderência à medicação foi confirmada por chamadas de vídeo e contagem de pílulas, e confirmada por exames de sangue. O uso da cannabis foi verificado por testes de urina. E os problemas no sono foram avaliados por questionários e polissonografia.

No início do estudo, os participantes fumavam, em média, três baseados por dia. Após a admissão no centro de recuperação, o uso caiu para zero. Na primeira semana de tratamento, os pacientes do grupo do inibidor de FAAH relataram menos sintomas de abstinência que os que tomaram placebo.Ao fim do tratamento, os pacientes tratados com o medicamento relataram uso em menor intensidade da maconha, média de 0,40 baseados contra 1,27, do grupo de controle, e também menor concentração de THC na urina. Os padrões de sono também foram significativamente melhores nos pacientes medicados. 

A aderência ao tratamento foi de 88% e o medicamento se mostrou seguro, com poucosefeitos colaterais, compatíveis com os do grupo de controle (43% no grupo medicado e 46% no de controle). Apesar dos resultados, os cientistas destacaram suas limitações. Mulheres não foram convocadas e não foram considerados as motivações para a interrupção do uso e os efeitos funcionais do vício na vida dos participantes.

— O PF-04457845 foi bem tolerado — afirmou Cyril D’Souza. —Entretanto, mais pesquisas são necessárias para demonstrar que o medicamento é seguro e efetivo em amostras maiores de pacientes, particularmente mulheres.

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