Após uma longa escavação que durou mais de duas décadas, um misterioso esqueleto de hominídeo está começando a revelar seus segredos sobre a evolução humana. Os primeiros estudos sobre o “Little Foot” (Pé Pequeno), nome dado ao fóssil de australopiteco que viveu há 3,67 milhões de anos onde hoje está a África do Sul, ganharam destaque este mês na revista “Nature” e revelam se tratar de uma fêmea adulta, adaptada a caminhar em pé.

O nome “Little Foot” faz referência ao lendário “Big Foot”, ou Pé Grande, mas destacando as pequenas dimensões de quatro ossos fossilizados de um pé esquerdo, os primeiros a serem descobertos no sistema de cavernas de Sterkfontein, ainda na década de 1980, mas identificados apenas em 1994 por Ronald Clarke.

Intrigado, o paleantropólogo da Universidade Wits, em Joanesburgo, voltou a campo e encontrou, numa matriz de rocha sólida, o restante do esqueleto mais completo já descoberto de um australopiteco. Cuidadosamente, todos os ossos fossilizados foram removidos da caverna, num processo encerrado apenas no ano passado.

— É quase um milagre que ele tenha saído intacto — comentou Robin Crompton, biólogo da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, que colaborou nas escavações. — Os ossos fossilizados eram mais macios que a matriz. Foi um inferno absoluto tirá-lo de lá.

Com os fósseis removidos de Sterkfontein, Clarke foi capaz de reconstruir mais de 90% do esqueleto. Nenhum outro fóssil de australopiteco chega perto disso. Por comparação, o mais famoso australopiteco, a Lucy, tem cerca de 40% do esqueleto completo.

No último dia 29, a equipe de Clarke publicou os dois primeiros estudos sobre “Little Foot” no arquivo bioRvix, sobre a idade do espécime e os membros inferiores e a locomoção. No dia 4 de dezembro, um terceiro artigo foi publicado, sobre o crânio e a possível relação com uma espécie conhecida de hominídeo. Um quarto paper, sobre os braço e um ferimento que “Little Foot” sofreu durante a vida, foi postado no dia 5.

Os estudos indicam que “Little Foot” era uma fêmea adulta, com cerca de 130 centímetros, apenas dez centímetros menor que a média das mulheres das primeiras populações de humanos modernos. As análises revelaram que as penas de “Little Foot” eram maiores que os braços, da mesma forma que os humanos modernos. Segundo Crompton, trata-se do mais antigo hominídeo que podemos garantir esta característica.

Isso significa que “Little Foot” era melhor adaptada a caminhar em pé, no chão, que muitos outros australopitecos, que aparentemente passavam a maior parte do tempo se movendo entre as árvores.

Os ossos do crânio e os dentes são tão incomuns que os pesquisadores categorizaram o fóssil como uma espécie distinta das já conhecidas. Entretanto, evitaram dar um nome à espécie, classificando “Little Foot” como um Australopithecus prometheus.

Esta espécie foi designada em 1948, com base em fragmentos de crânios encontrados a 250 quilômetros de Joanesburgo, mas rapidamente pesquisadores abandonaram a nomenclatura, dizendo que os fósseis pertenciam a uma espécie já reconhecida, a Australopithecus africanus. Mas para Clarke, “Little Foot” não pertence à espécie A. africanus, mas decidiu recuperar o nome A. prometheus.

De acordo com os estudos, A. prometheus é potencialmente um ancestral de um grupo de hominídeos conhecido como Paranthropus, que coexistiu com os primeiros representantes da espécie Homo por cerca de um milhão de anos.

Críticas sobre a falta de dados

As primeiras leituras dos estudos apontam divergências. Lee Berger, também arqueólogo na Universidade Wits, mas não envolvido nas escavações, discorda da classificação de “Little Foot” como um A. prometheus. Na sua opinião, a espécie nunca foi definida de forma apropriada. O especialista também se disse desapontada pela falta de informações sólidas sobre a idade e a locomoção.

— Não existem dados. Quase não há medidas dos fósseis — criticou.

A antropóloga Gabriele Macho, da Universidade de Oxford, concorda que o artigo sobre locomoção não fornece dados sólidos. Contudo, ela destaca que os pesquisadores informaram que o trabalho está em andamento.

— O ponto positivo disso é que o esqueleto é tremendamente importante — afirmou. — Não há questão sobre isso.

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