Muito se tem falado sobre a questão indígena no país, seja no Palácio Planalto, na Esplanada dos Ministérios ou nas redes sociais. De uma hora para outra, todos viraram indigenistas no país, mas esqueceram de consultar os maiores interessados nesse debate: os índios.

Desde a campanha eleitoral, o presidente, Jair Bolsonaro, vem adotando discurso contrário à política de preservação dos povos indígenas, como determina a Constituição de 1988. Chegou a comparar os índios em reservas e territórios demarcados com “animais em zoológicos”. Também fez duras críticas às dimensões das reservas, que ocupam cerca de 13% do território nacional.

Basicamente, existem dois argumentos. O primeiro é de que o índio quer ser integrado ao restante da sociedade brasileira, não viver em meio à floresta. O segundo, completamente irreal, é de que os indígenas podem um dia, sob influência de ONGs internacionais, declarar independência e formar novos países.

Com base nesses preceitos, Bolsonaro tem guiado a política indigenista pelo enfraquecimento dos órgãos do Estado responsáveis pela pauta. As mudanças mais graves foram a transferência da Fundação Nacional do Índio (Funai) do Ministério da Justiça para o Ministério dos Direitos Humanos, e da prerrogativa das demarcações, da Funai para o Ministério da Agricultura.

Pela retórica e pelas ações, nesses primeiros dias o governo tem demonstrado interesse não na proteção das culturas tradicionais, mas na concessão do território indígena para a exploração. Então, perguntamos a alguns indígenas o que eles pensam sobre o que está acontecendo.

Dinaman Tuxá, do povo Tuxá e coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil

Dinaman Tuxá representa uma das principais associações indígenas do país/Arquivo pessoal

Após esses primeiros dias, o que você acha do governo do presidente Jair Bolsonaro?

Nesse primeiro momento, está se concretizando tudo o que estávamos temendo. A sensação que nós temos é que, além de ser um racista, com ideias fascistas, ele está conseguindo se superar na questão dos direitos dos povos indígenas. Nós sabíamos que corríamos riscos, mas achávamos que ele poderia recuar pelo fato de a causa indígena ser muito polêmica, não só na esfera nacional, como internacional.

Mas ele teve a audácia de enfraquecer todos os órgãos que tinham competência institucional para promover e defender os direitos dos povos indígenas, com o sucateamento da Funai e do Ministério do Meio Ambiente. Então, ao alterar a competência da demarcação de terras, a nossa preocupação é que o Estado esteja institucionalizando, instrumentalizando o genocídio dos nossos povos. Ele está manchando a bandeira do Brasil com sangue indígena.

Então, no primeiro momento, eu acho que o Jair Bolsonaro vem com um espírito genocida, colonizado. Ele vem para, de fato, tentar mais uma vez nos colonizar. A sensação que tenho nesse momento é a mesma que meus antepassado tiveram há 518 anos: uma sensação de impotência, de fragilidade. Na prática, ele deu o aval para a invasão das terras indígenas. O Estado brasileiro está dando o aval para que grileiros, madeireiros, fazendeiros e garimpeiros adentrem nas nossas terras. O cenário é desolador e muito preocupante.

O governo também tem atacado as ONGs que realizam trabalhos em terras indígenas. Como você avalia isso?

Na verdade, isso faz parte do projeto de enfraquecimento da política indigenista no país. Existe claramente uma ação do governo para enfraquecer a defesa dos nossos povos, que passa pelos órgãos de governo — no caso, a Funai, o Ministério do Meio Ambiente e o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional — que de certa forma contribuíam para a causa indígena.

Depois do desmonte no governo, eles começam a atacar as ONGs que ajudam os nossos povos nas defesas dos nossos direitos. Essa política genocida que o Estado brasileiro vem adotando desde o dia primeiro de janeiro, na verdade, começou em 1.500. Ao longo do tempo, ela foi mais dura em alguns momentos, mais branda em outros. Nos últimos anos, ela estava amenizada, mas desde o dia primeiro parece claro que eles querem, de fato, exterminar os povos indígenas. Primeiro, atacaram os órgãos institucionais, que fazem parte da estrutura do Estado, e agora estão partindo para as ONGs.

Um dos argumentos do Bolsonaro é de que os indígenas querem ser “integrados à sociedade”. Como vocês querem viver?

Essa ideia que o Bolsonaro tenta emplacar já foi colocada em 1964, no período da ditadura militar. Essa ideia de integração, de comunhão nacional, nós sabemos que não funcionou. Pelo contrário, houve um aumento da violência dentro das terras indígenas. Nós não nos adequamos à vida no modelo capitalista. Nós buscamos a demarcação de terras porque é nelas onde viveram nossos ancestrais, os nossos antepassados. Nós sabemos cuidar das terras, protege-las, e as terras nos protegem. A vida no capitalismo predatório não está no nosso DNA. Nós não aceitamos isso. Nós não vemos a terra como um comércio, ela é a nossa mãe. Nos forçar a vivermos fora dos nossos territórios seria declarar a extinção dos povos indígenas no Brasil.

E sobre a ideia de abrir as terras indígenas para a exploração. O que você acha disso?

Há muitos anos que o Congresso vem tentando legislar sobre esse tema, do arrendamento em terras indígenas. Então, nós ficamos temerosos porque a abertura seria muito danosa. Os nossos territórios são bastante conservados, preservados, por causa das demarcações que foram feitas no passado. Por isso, os nossos territórios acabaram acumulando uma riqueza incalculável, uma riqueza natural que é muito sagrada para nós.

Não é concessão da exploração em terras indígenas que vai resolver os problemas do Brasil. E nós não vamos aceitar. Não existe arrendamento de terra indígena, não existe exploração de forma predatória. Isso traria consequências globais. Por nós sermos os guardiões desses territórios, nós contribuímos no combate ao aquecimento global. Nós estamos nos 13% do território mais preservados do Brasil e do mundo.

A abertura para a exploração irá exterminar a maior diversidade cultural do planeta, que está aqui no Brasil, habitando o território brasileiro. Infelizmente, essa diversidade está sendo ameaçada porque nós abrigamos riquezas naturais e minerais, que estão sendo alvo da cobiça. Sempre foi, mas agora estamos percebendo que este governo, e o presidente da república de forma muito particular, está querendo a todo o custo a exploração dos nossos territórios. Está querendo exterminar os nossos povos e, junto, o nosso patrimônio cultural, os nossos saberes milenares.

Nós somos os primeiros brasileiros. Nós somos as nações que formaram esse Brasil, mas infelizmente estamos sendo ameaçados. Nós clamamos por socorro, para que o mundo volte os olhos para a nossa luta e enxerguem essa ameaça. A destruição das nossas culturas, a exploração das nossas terras, não terão implicação apenas para nós, indígenas, mas para todo o planeta. Por isso, demarcação, já.

Ashauá Kuikuro, do povo Kuikuro

Para Ashauá Kuikuro, o governo deveria se preocupar com a economia, não com as terras indígenas/Arquivo pessoal

Após esses primeiros dias, o que você acha do governo do presidente Jair Bolsonaro?

Primeiramente, o jeito que ele fala sobre os índios, principalmente sobre as terras indígenas, não é bom para os índios. Não me sinto tranquilo com isso, porque é a nossa casa. Como vocês têm casas na cidade, esse é o lugar de vocês. As terras indígenas são o nosso lar. A gente não está preso nesse lugar. É a nossa casa, onde nascemos, crescemos e morremos.

Eu sempre me pergunto, o que as terras indígenas têm a ver com a política brasileira ou com a economia brasileira? Por que ele está em cima das terras indígenas? Ele tem que melhorar é a segurança, ter foco também na educação, na saúde, na economia e outras coisas. A terra indígena não tem nada a ver com isso.

Aliás, ele já declarou interesse em abrir as Terras Indígenas para exploração. O que você acha disso?

Isso é preocupante para os índios. Seria o fim para a gente. Esse é o nosso lugar, onde a gente se sente à vontade. Tudo o que tem aqui é de onde a gente se alimenta, nossas fontes de vida. E ele tirar a gente da mão da Funai e entregar para o inimigo é outra coisa, né? Mas a gente vai lutar até o fim.

O governo também tem atacado as ONGs que realizam trabalhos em terras indígenas. Como você avalia isso?

ONGs?

Organizações Não Governamentais? Tem alguma que atue na sua aldeia?

Eu não tenho conhecimento disso, deve ter em outras. Quem cuida aqui é a Funai.

Um dos argumentos do Bolsonaro é que os indígenas querem ser “integrados à sociedade”. O que você acha disso?

É o fim para a nossa cultura. O nosso lugar é onde a gente está. O que a gente precisa é de respeito pela nossa cultura. O Messias é o próprio Apocalipse para os indígenas, ele tem que focar mais na economia, não nas terras indígenas.

Kamarifé Waurá, do povo Waurá

Kamarifé Waurá estuda Arqueologia na Universidade Federal de Goiás/Arquivo pessoal

Após esses primeiros dias, o que você acha do governo do presidente Jair Bolsonaro?

Olha, o povo indígena do Xingu não gosta do Bolsonaro. Para o meu povo do Xingu, o Bolsonaro é uma ameaça para a nossa casa, que é a Floresta Amazônica. Por isso, cada povo do Xingu está muito triste, porque a floresta é como um mercado para nós indígenas. A floresta nos faz respirar, para a gente trabalhar, e sem ela a gente vai morrer. Por isso, meu povo indígena do Xingu não gosta de Bolsonaro.

O governo também tem atacado as ONGs que realizam trabalhos em terras indígenas. Como você avalia isso?

A gente se sente ameaçado, por isso, na nossa avaliação, está ruim para nós.

Existe o interesse de abrir as terras indígenas para a exploração. O que você acha disso?

Pela exploração que ele quer fazer, estamos muito tristes.

Um dos argumentos do Bolsonaro é que os indígenas querem ser “integrados à sociedade”. Como vocês querem viver?

Queremos viver em paz na nossa natureza, sem sermos ameaçados.

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta

Por favor, escreva o seu comentário
Escreva o seu nome aqui