Os criadores descrevem as diferenças no comportamento de cães apenas pela raça. Os labradores são enérgicos e amigáveis, enquanto os pastores alemães são extremamente fiéis a seus tutores. Agora, no maior estudo já realizado sobre a genética desses animais, cientistas demonstraram que essas características estão inscritas em seus genes, numa descoberta que pode ter consequências no entendimento do comportamento humano.

— É um grande avanço — comentou Elaine Ostrander, geneticista de mamíferos no Instituto Nacional de Pesquisas sobre o Genoma Humano, em Maryland, em entrevista à revista “Science”. — É um número finito de genes e muitos fazem sentido.

Quando o genoma dos cachorros foi sequenciado, em 2005, cientistas pensaram que poderiam rapidamente identificar os genes de cada raça relacionados com a personalidade, mas perceberam que a variação até mesmo entre animais da mesma linhagem era enorme.

Com novas tecnologias de análise de grandes quantidades de dados, Evan MacLean, psicólogo na Universidade do Arizona, em Tucson, e Noah Snyder-Mackler, da Universidade de Washington, em Seattle, analisaram dados comportamentais de cerca de 14 mil cães de 101 raças diferentes.

Os dados foram coletados pelo estudo Canine Behavorial Assessment & Research Questionaires, no qual os tutores respondem a perguntas como “O que o cão faz quando um estranho aparece na porta”. As respostas caracterizam, de forma objetiva, 14 aspectos da personalidade do animal.

Os pesquisadores compararam esses dados comportamentais com informações genéticas de diferentes raças. Dessa forma, foi possível identificar 131 locais no DNA dos animais que podem estar associados a esses 14 traços de personalidade. Juntas, essas regiões do DNA explicam cerca de 15% da personalidade das raças, sendo a facilidade ao adestramento, a capacidade de perseguição e a tendência para a agressividade os traços mais relacionados à genética.

Os resultados foram publicados num artigo publicado neste mês no repositório bioRxiv. As regiões do DNA indicadas fazem sentido. Algumas estão dentro ou perto de genes associados à agressividade em humanos, por exemplo. As áreas associadas à facilidade de adestramento estão em genes que, em humanos, estão associados com a inteligência e o processamento de informações.

Possibilidade para novos tratamentos em humanos

Para James Serpell, pesquisador da Universidade da Pensilvânia que criou o questionário, os resultados do novo estudo sugerem que o comportamento é guiado pelos mesmos genes em diferentes espécies. Se, por exemplo, os genes relacionados com a ansiedade em cães forem os mesmo que nos humanos, novos tratamentos podem ser desenvolvidos.

— Esse é o tipo de coisa que podemos ver no futuro — afirmou Serpell.

Como os dados genéticos e comportamentais são de diferentes conjuntos de cães, o estudo não pode relacionar tendências específicas de comportamento de uma raça a um gene, explica Heidi Parker, do Instituto Nacional de Pesquisas sobre o Genoma Humano, um dos pioneiros nos trabalhos com o genoma dos cães.

— Este artigo não identifica uma raça particular por seu comportamento — explicou o pesquisador. — Ele se baseia em comportamentos que são encontrados em muitas raças.

Dessa forma, explica Serpell, não é possível fazem uma análise comportamental de um determinado animal a partir do DNA. Contudo, estudos neste sentido estão sendo realizados.

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