No dia 17 de junho, o telescópio Atlas, no Havaí, capturou uma anomalia extremamente brilhante a cerca de 200 milhões de anos luz de distância, na constelação Hércules. Batizado como AT2018cow, ou apenas “The Cow” (A Vaca), o objeto se acendeu rapidamente e, então, desapareceu. Após combinar outras fontes de imagens, incluindo telescópios de raios-X e de ondas de rádio, os cientistas agora especulam que o evento capturado foi o momento exato do colapso de uma estrela, para formar uma estrela de nêutrons ou um buraco negro.

Segundo a equipe internacional de pesquisadores, liderada pela Universidade Northwestern, o brilho foi provocado por destroços da estrela, que giravam em torno do novo objeto. Este evento raro, capturado pela primeira vez por um telescópio, pode ajudar os astrônomos a compreenderem melhor a física envolvida logo após a criação de uma estrela de nêutrons ou de um buraco negro.

— Nós sabemos, pela teoria, que buracos negros e estrelas de nêutrons são formados quando uma estrela morre — explicou Raffaela Margutti, líder do estudo apresentado nesta semana no encontro da Sociedade Astronômica Americana, em Seattle. — Mas nós nunca os vimos logo após o nascimento. Nunca.

Após ser avistada, a “The Cow” atraiu imediatamente o interesse da comunidade científica internacional, mas as primeiras imagens levantaram mais dúvidas do que trouxeram respostas.

— Nós pensávamos se tratar de uma supernova (uma explosão muito brilhante nos estágios finais de algumas estrelas) — contou Margutti. — Mas o que nós observamos desafiava as nossas noções atuais sobre a morte de uma estrela.

Brilho dez a cem vezes mais intenso que uma supernova

A primeira anomalia era o brilho extremo, entre dez e cem vezes mais intenso que o de uma supernova típica. O objeto também se acendeu e se apagou muito mais rápido que outras explosões estelares conhecidas, com partículas voando a 30 mil quilômetros por segundo, cerca de 10% da velocidade da luz.

Além disso, em apenas 16 dias o objeto já havia emitido quase toda a sua energia. No Universo, onde alguns fenômenos duram por milhões ou bilhões de anos, duas semanas é quase um piscar de olhos.

— Nós soubemos imediatamente que esta fonte veio da inatividade ao pico de luminosidade em apenas alguns dias — relembra a pesquisadora. — Isso foi o suficiente para deixar todo mundo excitado, porque é tão incomum e, pelos padrões astronômicos, foi muito perto.

Após a detecção, vários instrumentos miraram para o objeto. Com novos dados, os cientistas puderam inferir a composição química da “The Cow”, com evidências claras da presença de hidrogênio e hélio, o que excluiu a possibilidade de se tratar do choque de dois objetos maciços.

Além da luz visível, os astrônomos usaram telescópios para detectar raios-X, raios gama e ondas de rádio, o que permitiu observações mesmo após o brilho inicial ter se esvaído. Segundo Margutti, duas características da “The Cow” facilitaram a sua observação.

Estrelas explodem no Universo, criando supernovas, buracos negros e estrelas de nêutrons, o tempo todo, mas normalmente a grande quantidade de partículas ejetadas bloqueia a visão do fenômeno. Neste caso, a quantidade de material expelido foi cerca de dez vezes menor em comparação com explosões típicas de estrelas. Sem a poeira, os astrônomos puderam observar a “engrenagem central” do objeto que estava sendo formado, provavelmente um buraco negro ou uma estrela de nêutrons.
Além disso, o fenômeno aconteceu relativamente “perto” de nós. Apesar de ter acontecido numa distante galáxia anã conhecida como CGCG 137-068, em termos astronômicos a explosão aconteceu “na próxima esquina”.

— Uma “lâmpada” estava brilhando dentro dos destroços da explosão. A “The Cow” tinha muito pouca massa ejetada, o que nos permitiu ver a engrenagem central da radiação diretamente — comentou Margutti. — 200 milhões de anos luz é perto para a gente. Este é o objeto transitório desse tipo mais próximo que já encontramos.

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