A tecnologia de dessalinização é uma das soluções mais aplicadas no mundo para a produção de água potável em regiões sem fontes naturais, sobretudo no Oriente Médio e no Norte da África. A estimativa é que existam cerca de 16 mil usinas em atividade no mundo, que produzem 95 milhões de metros cúbicos de água potável por dia, o equivalente à metade da vazão das Cataratas do Niágara. Porém, tal maravilha deixa para trás um passivo ambiental pouco conhecido, o despejo de uma quantidade colossal de salmoura.

De acordo com um alerta dado pelas Nações Unidas nesta semana, para cada litro de água potável produzido, as usinas despejam, em média, 1,5 litro de salmoura. No mundo, as usinas descartam 142 milhões de metros cúbicos de água hipersalina por dia. No ano, são 51,8 bilhões de metros cúbicos, o suficiente para cobrir todo o estado americano da Flórida com uma camada de 30 centímetros do resíduo.

O estudo foi produzido por uma equipe internacional de pesquisadores ligada ao Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, das Nações Unidas. Os autores destacam que 55% da produção global do resíduo vem de apenas quatro países: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar. Por lá, a maior parte das usinas usa a água do mar como fonte, com tecnologias termais de dessalinização, produzindo quatro vezes mais salmoura por metro cúbico de água tratada que usinas alimentadas por águas de rios com uso de membranas.

O relatório afirma que os métodos de descarte dos resíduos são ditados, principalmente, pela geografia, mas tradicionalmente incluem o despejo direto em oceanos, rios e lagos, injeção em poços ou reservatórios para evaporação. As usinas próximas ao oceano — quase 80% da salmoura é produzida num raio de 10 quilômetros do litoral — quase sempre fazem o descarte direto no mar.

— O despejo de salmoura esgota o oxigênio dissolvido na água — alertou Edward Jones, autor principal do estudo. — A equação de alta salinidade com níveis baixos de oxigênio gera impactos profundos sobre os organismos bentônicos (que vivem no fundo do mar), que podem ser traduzidos em efeitos ecológicos observáveis ao longo de toda a cadeia alimentar.

Aproveitamento econômico dos resíduos

Por isso, os cientistas pedem que governos adotem medidas para gerenciar melhor esse tipo de resíduo, que pode até mesmo ser aproveitado economicamente. A salmoura pode ser usada na aquacultura, a irrigação de espécies tolerantes ao sal, na geração de energia e na recuperação de sais e metais presentes nos resíduos, como magnésio, cálcio, potássio e lítio.

— É preciso traduzir essa pesquisa e converter um problema ambiental numa oportunidade econômica — disse Manzoor Qadir, coautor do estudo. — Isso é particularmente importante em países que produzem grandes quantidades de salmoura com baixa eficiência, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar.

No Brasil, o debate em torno da dessalinização ganhou força após a posse do presidente, Jair Bolsonaro, que publicamente defendeu o interesse em obter tecnologias desenvolvidas por Israel. Por causa da seca, o método já é utilizado algumas regiões do país, principalmente no Nordeste, onde pequenas usinas são instaladas para o tratamento da água salobra obtida de poços.

Com o alerta, os pesquisadores esperam que pesquisas avancem no setor, com o intuito de melhorar a eficiência das usinas e aproveitar os resíduos.

— Entre 1,5 bilhão e 2 bilhões de pessoas vivem atualmente em áreas com escassez de água, onde os recursos hídricos são insuficientes para a demanda durante ao menos uma parte do ano, sendo que cerca de meio bilhão de pessoas sofrem com a escassez durante todo o ano — afirmou Vladimir Smakhtin, que também participou da pesquisa. — Existe uma necessidade urgente de se fazer tecnologias de dessalinização mais baratas para estendê-las para países pobres. Ao mesmo tempo, porém, devemos lidar com os problemas severos da dessalinização: os danos causados pela salmoura aos ambientes marinhos e à saúde humana.

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