Durante uma expedição que durou 12 dias, em comunidades e trechos de floresta nas calhas dos rios Jutaí e Solimões, no interior da Amazônia, pesquisadores descobriram vestígios de ocupação humana no passado em dez novos sítios arqueológicos. São restos de cerâmica, carvões e a presença da terra preta de índio, que ajudam a contar a história de como viviam e se comportavam os antigos habitantes da região.

— Os estudos arqueológicos são complementares aos levantamentos de fauna e flora nas unidades de conservação e contribuem com dados para conhecer o passado da região e pensar em formas de proteger o território — afirma Márcio Amaral, arqueólogo do Instituto Mamirauá que identificou os novos sítios.

As pesquisas aconteceram dentro e ao redor da Estação Ecológica (Esec) Jutaí-Solimões e da Reserva Extrativista (Resex) Rio Jutaí, unidades de conservação ambiental que juntas somam mais de 500 mil hectares. E sinais de ocupação no passado estão por toda parte, desde registros da cultura material, como a cerâmica, até indícios mais sutis, como a presença de solo arqueológico escuro e rico em nutrientes, conhecido como terra preta de índio, e a concentração de plantas úteis, que foram manejadas pelos antepassados.

— Existe uma associação muito próxima entre terra preta, sítios arqueológicos e plantas úteis aos seres humanos, como a bacaba, o açaí a pupunha e o ingá — explica Amaral. — Por vezes, os arqueólogos não conseguem achar a terra preta, nem fragmentos cerâmicos, mas conseguem ver a vegetação diferente. A antropização da área indica que ali provavelmente existe um sítio arqueológico.

A presença desse tipo de vegetação, de forma concentrada, ajuda a contar o passado da ocupação. No senso comum, existe a noção de que os povos indígenas da Amazônia eram tecnologicamente atrasados, sem agricultura, nômades caçadores e coletores. Entretanto, a presença de sinais de manejo de espécies, tanto vegetais como de peixes, apontam para sedentarização de grandes grupos humanos.

Segundo Amaral, essa visão foi construída a partir dos relatos históricos de viajantes e conquistadores, mas a dinâmica das populações locais foi alterada exatamente pela chegada dos colonizadores europeus, que dizimou os povos tradicionais.

— A associação de plantas úteis com agricultura e manejo de recursos indica o sedentarismo — afirma Amaral. — Para entender a lógica do sedentarismo e da mobilidade, é preciso considerar a pressão que foi imposta a essas sociedades a partir do século XVI, com a chegada dos europeus. Grupos que reuniam centenas, milhares de indígenas, foram reduzidos a algumas dezenas. E isso tem impacto no modelo de ocupação das terras.

E pela fertilidade da terra preta de índio, associada com a presença de espécies de plantas úteis manejadas no passado, alguns sítios arqueológicos coincidem com áreas ocupadas hoje por comunidades e vilarejos.

— Os sítios compartilham o mesmo espaço de áreas antrópicas, com terra preta e fértil. A população atual também está morando em cima desses sítios, o mesmo espaço que já foi ocupado há 3 mil, 4 mil anos. É um padrão que se repete e é notado em pesquisas arqueológicas em toda a Amazônia — destaca Amaral.

A expedição também coletou fragmentos de cerâmicas de duas tradições da história pré-colonial da Amazônia: a Pocó e a Polícroma. A tradição Pocó tem seu ponto de irradiação na área dos rios Nhamundá e Trombetas, na região do Baixo Amazonas, mas sua presença se estende por um vasto território.

Entre as características marcantes está o uso de diversas cores, com destaque para o amarelo, o laranja e o vermelho, sobre um fundo branco, e a presença de figuras geométricas, como retângulos, quadrados, círculos, faixas e linhas.

— Esse tipo de incisão geométrica é encontrado em sítios arqueológicos como o da Boa Esperança, dentro do rio Juruá e em Santarém, no Pará. Os registros chegam também até às regiões rio Xingu e ao Rio Tocantins. Isso nos dá a dimensão que alcançou a tradição cerâmica Pocó há 3 mil anos dentro dessa ampla região — afirma Amaral, ressaltando que essa dispersão não está relacionada com a existência de um grande grupo, mas a uma dinâmica de trocas culturais entre os antigos povos da Floresta Amazônica. — O alcance das cerâmicas Pocó parece estar associado a fatores que incluem agricultura, sedentarismo, aumento populacional e a comunicação entre regiões por meio das antigas e complexas redes de interações sociais de curta, média e longa distância.

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