Um missionário americano operando no Brasil expôs uma aldeia indígena isolada a doenças e, possivelmente, à morte, informou nesta semana a Fundação Nacional do Índio (Funai). Steve Campbell, financiado pela Greene Baptist Church, fez uma incursão no mês passado na Terra Indígena Hi-Merimã, onde vivem cerca de cem indígenas isolados, na região do igarapé Canuaru, próximo ao Rio Purus, no Amazonas.

“É um caso de violação de direitos e exposição ao risco de morte para uma população indígena isolada”, informou a Funai, em comunicado à agência Reuters. “Mesmo que o contato direto não tenha acontecido, a probabilidade de transmissão de doenças é alta”.

De acordo com especialistas, é provável que a ação de missionários evangélicos em aldeias isoladas aumente no país, após a indicação de Damares Alves, uma pastora evangélica, para o ministério que ficou responsável pela questão indígena.

Desde a campanha, o presidente, Jair Bolsonaro, defendeu a posição de integração dos indígenas, contrária à política adotada até então, e respaldada por organismos internacionais, de autodeterminação dos povos indígenas.

A autodeterminação dos povos indígenas

Até 1987, a política indigenista no Brasil pregava o contato e a integração, mas essa abordagem se mostrou catastrófica. Muitas aldeias foram dizimadas pela transmissão de doenças, para as quais os indígenas nunca haviam sido expostos e, portanto, não possuíam defesas no organismo.

Com a Constituição de 1988, os povos indígenas passaram a ter o direito de serem protegidos, com a demarcação de territórios, para a preservação de suas culturas e seus modos tradicionais de vida. Pela autodeterminação, os indígenas podem tanto buscar a integração, como manter o isolamento. E o Estado tem o dever de garantir esse direito.

Os hi-merimã foram identificados na década de 1980 e, após longo processo, tiveram o reconhecimento e a demarcação da Terra Indígena em 2005, segundo informações do Instituto Socioambiental. Pouco se sabe sobre este povo, que ficou conhecido por rejeitar o contato com os brancos, mantendo relações hostis até mesmo com outras comunidades indígenas.

Segundo a Funai, Campbell acampou numa área dentro do território protegido e invadiu um acampamento recentemente abandonado. Felizmente, ele não chegou a ter contato direto com os indígenas, pois além de aumentar ainda mais o risco de transmissão de doenças, ele poderia ter sido morto, como aconteceu com o também missionário americano John Allen Chau, que morreu ao tentar contato com povos isolados em Sentinela do Norte, no arquipélago de Andaman e Nicobar.

Detalhes sobre as penas que podem ser impostas a Campbell não foram detalhados, pois o Ministério Público e a Polícia Federal ainda não foram acionados pela Funai.

— Caso configure, na investigação, que existiu interesse de fazer contato, de se utilizar da relação dele com outros índios para se aproximar dos isolados, ele pode ser imputado por crime de genocídio ao expor deliberadamente a segurança e a vida dos hi-merimã — afirmou Bruno Pereira, coordenador geral de índios isolados e de recente contato da Funai, em entrevista à Folha de São Paulo. — A memória imunológica deles não está preparada para uma simples gripe ou conjuntivite. Um outro ponto são contatos conduzidos por pessoas que não respeitam a autodeterminação desses povos e suas formas de vida. Historicamente, isso tem acarretado em interferências violentas em suas relações vitais com o ambiente, com as relações familiares, com aquilo que acreditam.

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