Desde que foi descoberto, em outubro de 2017, o Oumuamua intriga a comunidade científica. Com corpo achatado e comprido, órbita que indica origem fora do Sistema Solar e velocidade acima do normal, o corpo espacial ainda não tem uma identificação definitiva. Alguns dizem se tratar de um asteroide, outros afirmam ser um cometa. Mas uma teoria em particular tem levantado polêmica, a de que o Oumuamua seria uma espaçonave alienígena.

E quem defende essa teoria não é um ufólogo, escrevendo num tabloide sensacionalista, mas Avi Loeb, diretor do departamento de Astronomia da Universidade Harvard. No seu extenso currículo estão quatro livros e mais de 700 artigos publicados, sobre temas que vão dos buracos negros, o surgimento das primeiras estrelas e o futuro do Universo. O seu último trabalho, escrito em parceria com Shmuel Bialy, foi publicado na prestigiada revista científica “The Astrophysical Journal Letters”, defendendo a possibilidade de o Oumuamua ser uma “vela solar de origem artificial (…) projetada para viagens interestelares”.

Membro eleito da Academia Americana de Artes e Ciências, da Sociedade Americana de Física e da Academia Internacional de Astronáutica, Loeb é considerado uma das personalidades mais influentes da astronomia mundial. A publicação de um artigo defendendo que um objeto criado por uma civilização alienígena cruzou a nossa vizinhança espacial gerou reações dentro da comunidade científica.

“Oumuamua não é uma espaçonave alienígena e os autores do artigo insultam a investigação científica honesta com tal sugestão”, escreveu Paul Sutter, astrofísico da Universidade Estadual de Ohio, no Twitter. “É um exemplo chocante de sensacionalismo”, descreveu o astrofísico Ethan Siegel.

Mas Loeb não se incomoda com os críticos e mantém sua posição, mesmo que isso coloque em risco sua reputação entre seus pares. A maioria dos cientistas defende que Oumuamua é uma rocha, ejetada de alguma estrela na Via Láctea há centenas de milhões de anos, ou um cometa vagando pelo espaço interestelar. Mas ele se move muito rápido para ser um asteroide, pontua Loeb, com base em observações que mostraram o objeto acelerando para longe do Sol, como se algo o estivesse empurrando. E nenhuma observação mostrou indícios de que Oumuamua seria um cometa.

‘Se alguém me mostrar o contrário, volto atrás imediatamente’

Para Loeb, o comportamento do Oumuamua descarta a possibilidade de o objeto ser apenas uma rocha alongada, no formato de charuto, como muitos defendem. Ele deve ser um objeto longo e estreito, e muito fino, talvez com apenas alguns milímetros de espessura, como a vela de navios, tão leve e fino que está sendo empurrado pela luz do Sol para fora do Sistema Solar. Para Loeb, Oumuamua deve ser o destroço de uma espaçonave interestelar, construída por uma avançada civilização alienígena.

— Muitas pessoas esperavam que com a publicidade, eu voltaria atrás — afirmou o cientista, em entrevista ao “Washington Post”. — Se alguém me mostrar evidências que mostrem o contrário, eu volto atrás imediatamente.

E enquanto nenhum outro cientista for capaz de derrubar a teoria de Loeb, o antes modesto e pacato cientista se diverte com o status de celebridade. Recentemente, participou de uma sessão do “Ask Me Anything (AMA), do fórum Reddit, e concedeu incontáveis entrevistas aos mais prestigiados veículos de imprensa do mundo. Constantemente, envia a colegas reportagens publicadas sobre ele.

— Isso muda a nossa percepção de realidade, por apenas saber que não estamos sozinhos — afirmou Loeb. — Nós lutamos por fronteiras, por recursos… Isso nos faz sentir parte do planeta Terra como civilização, em vez de países individuais votando pelo Brexit.

De origem simples, Loeb cresceu num vilarejo agrícola em Israel. Na adolescência, gostava de subir as montanhas para ler livros de Filosofia, imaginando como seria o Universo. E foi esse fascínio que o guiou para a Academia e, agora, ao Oumuamua.

— O pior que pode acontecer comigo é ser removido das obrigações administrativas, e isso me daria ainda mais tempo para focar na ciência — comentou, sobre o risco da repercussão negativa de seu artigo. — Todos os títulos que tenho, posso conseguir de novo. Na verdade, posso voltar para a fazenda.

Loeb iniciou sua carreira no fim dos anos 1980, quando entrou no Instituto para Estudos Avançados de Princeton, em Nova Jersey, e, depois, ingressou no Departamento de Astronomia de Harvard. Por sua posição numa das mais prestigiadas universidades do mundo, Loeb teve algumas oportunidades que poucos tiveram, como receber Stephen Hawking para um jantar em sua casa, ou ser procurado por Steven Spielberg para tirar dúvidas durante a produção de filmes. Um dia, o bilionário russo Yuri Milner entrou em seu escritório pedindo ajuda para projetar a primeira espaçonave interestelar, projeto no qual Loeb trabalha atualmente, com orçamento de US$ 100 milhões e apoio de ninguém menos que Mark Zuckerberg. Mesmo assim, o agora famoso cientista tenta manter a humildade.

— Eu não tenho no sistema de classes na minha cabeça a Academia sendo uma elite — afirmou. — Eu vejo como uma continuação da curiosidade da infância, de tentar entender como é o mundo.

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